domingo, 31 de dezembro de 2017

MMXVIII

A respiração está ofegante. São 6h15. Jonathan correu demais. Acordara cedo para praticar suas atividades, e hoje decidiu intensificar mais o exercício. Está acumulando planos e metas, ainda mais agora que é Janeiro e pretende planejar bem o ano que virá. O que fará nas suas férias? Que lugares deseja conhecer? Quais conhecimentos adquirir? Cursos, coaching, treinamentos, livros? Conhecer novos amigos? Alguma viagem? Investimentos, ações com resultados a longo prazo... Sua mente demonstra estar mais acelerada que seu corpo instantes atrás, e ele sabe que precisa estar na sua melhor forma para esta corrida que se estenderá nos próximos meses.

Alessandra está indecisa. Não sabe com que roupa irá sair para o compromisso que marcou. E admite que está um pouco impaciente, pois é sábado de carnaval, e a cidade está abarrotada e totalmente caótica. Sabe que irá gastar algumas horas num trajeto que costuma levar poucos minutos. O trânsito está fervilhando e os carros parados dão a sensação de que as coisas não andarão, mas no fundo ela sabe que o momento é passageiro. Precisa voltar a sua cidade ainda hoje após o compromisso para aproveitar os dias de folga com a família, mas não se queixa tanto, pois aproveita o bom momento que está vivendo.

O relógio tocou e deu a hora de Bruno se levantar. Não acorda mal humorado como de hábito, pois é sexta, e também está mais tranquilo pois o Outono está chegando, sua estação favorita. O calor irá amenizar e sua falta de paciência também. Está se sentindo ocioso, mas acredita que as coisas irão mudar em breve. A incógnita é se elas ficarão melhores ou piores, mas o entusiasmo de dois meses atrás diminuiu numa dose quase que molecular. Imperceptível, talvez, mas ele sabe que ocorreu. No fundo, entende que precisa levantar e fazer suas coisas.
 
Jornais, tinta, pincéis, lona... Assim vendo sendo as férias de Bianca. A procrastinação acabou pesando e ela não planejou viagens, nem passeios. E precisava de alguma forma preencher o tempo e seus pensamentos, para aliviar a sensação de culpa que habita sua mente nestes dias. Fez tudo de última hora. Aproveitou o feriado de Tiradentes para comprar o material, e no dia seguinte, já estava de férias do ofício, mas em plena atividade na mente e no coração, pensando em quem magoou. Ela sabia que não tomara a decisão mais sensata, mas não havia mais volta. Talvez o cheiro da tinta, a música tocando, o cansaço ao fim do dia fizessem com que pensasse em outras coisas.
 
O suor corria pela face de Eduardo. Por mais habituado que fosse, estar numa ligação com várias pessoas e todas lhe bombardeando perguntas não era uma sensação boa. Ele sabia todas as respostas, mas a carga de stress não tem lhe causado bons frutos. Há muito ele não saía para fazer coisas diferentes, sua vida se resumia a trabalho e casa (exceto o último final de semana que foi dia das mães e ele pôde estar com a família). O cansaço físico sempre foi atenuante nele, sempre sedentário. Mas o esgotamento psicológico já vinha sendo um fardo considerável a carregar.
 
O tempo parecia estar desenfreado para Juliana, pois justo quando ele deveria passar mais devagar, mais ele parecia acelerado. Ainda mais depois de um feriado emendado. Ia encontrar o rapaz que lhe interessava, depois de insistir em vê-lo. Acabou conseguindo chegar a tempo, mesmo parecendo levar uma eternidade para se arrumar e tentar ficar mais atraente o possível. O encontro foi bom, embora não tivesse ocorrido nada além de uma boa conversa e um bom chopp. Mas ela alimentou a esperança de ser convidada novamente. Quem sabe, as quermesses iam começar, talvez fosse uma ótima oportunidade. Mas não houve convite. Não houve uma nova chance. Houve apenas o silêncio.
 
O oceano de pensamentos na cabeça de Marcos, por mais mudos que fossem, agitavam em ondas, quase tsunamis, e tal qual um navio a deriva, ele tentava se manter firme. Não estava sendo nada fácil, ele imaginava que fosse enlouquecer. De qualquer forma, mantinha-se em pé, mesmo que tal qual a imagem de um boxeador prestes a ser nocauteado, mas sabe que daqui a dois segundos o sino iria tocar. Sua rotina se resumia em noites em claro, inúmeras mensagens não respondidas. Estava recluso, isolado. Nem a final da Copa do Mundo o despertava a atenção.
 
O porta-retrato na mesa do computador deixava Vanessa pensativa. Talvez qualquer outra pessoa ficasse triste, melancólica ao ver a imagem do pai às vésperas do dia dos pais, estando ele longe. Mas não era o caso de Vanessa. Estava muito pensativa, inevitavelmente. Se perguntava o quão a relação foi boa. O que gostaria de dizer pra ele pessoalmente, e não por e-mail ou mídias sociais. Sempre soou político demais o discurso, e ela tinha tanto a dizer, tanto a argumentar. Ela queria ser escutada, que ouvissem o que ela tinha a dizer. Mas precisava olhar nos olhos dele para se pronunciar. Quem sabe num outro dia, quando ele reaparecer...
 
A desafinação era absurda, mas Lucas nem ligava, enquanto dirigia e tentava cantar. Ia ter a primeira chance de se desligar de tudo por alguns poucos dias. Não importa a estrada pesada que pegaria neste 7 de Setembro emendado, ele ia para a praia, encontrar os amigos, lembrar histórias, tomar algum porre com eles... E sem puder, dizia que era mais do que merecido este descanso. Ele tem noção de que o tempo mudou e as coisas idem, mas ao menos um breve período para recarregar as pilhas o animam. Sabe que a rotina voltará, e portanto, não deverá perder esta chance em hipótese alguma.
 
Paciência, sem dúvidas, para Lucy, deveria ser algo equivalente ao som no espaço. Quase nula. Ligava a TV, acessava a internet, e todos falando de política, mobilizados pelas eleições. Ela odiava aquilo, pois achava a superficialidade com que as pessoas tratavam do assunto um crime. Independente de suas convicções, ela se negava a participar de algo neste nível, similar a um programa de conflitos familiares, onde o que vale é a audiência e querer mostrar que não "engole sapo". O maior desejo dela neste momento era morar longe do Brasil.
 
Se encontrasse uma lâmpada, esfregasse-a e surgisse um gênio lhe oferecendo um único desejo, Diego com certeza saberia o que dizer, sem hesitar: que o tempo voltasse. A frustração de ver como as coisas andaram neste ano e ver que tudo parece tão estático. Nem a chance de comprar uma câmera nova na Black Friday o animava, estava decepcionado com sua postura em vários aspectos. Era preciso fazer um balanço geral do que deve ter dado errado.
 
"Meu amigo secreto é o Fábio!", anunciou Tânia. Entregou o presente que comprou, uma caixa com três livros. Embora estivesse entretida na brincadeira, estava fazendo um balanço do que rolou durante o ano todo. Semana seguinte já seria natal, e será que valeu a pena? A sensação dela é de que nada do planejado deu certo. Caberia agora encontrar razões, culpados, ou qualquer coisa do tipo? Talvez, se quisesse planejar o próximo ano. Porém, em sua mente, ela dizia: "pra quê fazer planos, se nada ocorre como planejamos?". Muito embora isso ecoava, no fundo, no fundo, ela sabia que estava ansiosa para que o ano seguinte fosse melhor.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

É dia de translação...

Antes de mais nada, acredito que é necessário ser sincero com qualquer um que possa vir a ler estas palavras. Estou escrevendo embreagado. Sim, eu bebi bastante antes de escrever este texto, mas não compreendo que isso seja algo pejorativo e que possa vir a retirar a essência, significado e credibilidade que o teor deste relato irá apresentar. Digo isso com total tranquilidade,  pois, quem vier a ler, pode me cobrar (caso me conheça) qualquer erro gramatical ou ortográfico que possa vir a surgir. Dito isso, inicio meu pronunciamento. É final de translação. Nosso planeta completou uma volta inteira ao redor de nossa estrela. Se é lento ou rápido este processo, a resposta é deveras subjetiva. Einstein sabe muito bem do que digo, e tomarei a liberdade de tentar incrementar sua teoria (muitos dirão que se trata de coisa de bêbado, but whatever...). A relatividade deste movimento varia de como interpretamos ou entendemos ele. Uma translação: o que dá pra fazer em uma translação? Eu entendo que o tempo é deveras esticado e muita coisa pode ocorrer neste período. Todavia, acredito que, por mais que possamos viver ou testemunhar inúmeros acontecimentos, a sensação que é transmitida a nós em muitos casos entende-se como veloz, pois não parece que a última translação se completou em algum momento muito distante. Como diríamos, parece que foi ontem. Em minha ideia, não haveria tão cedo um ano tão difícil e terrível como foi o período entre 02 de Dezembro de 2015 para 02 de Dezembro de 2016. Na realidade, o período que o substituiu não foi nada positivo no seu conjunto da obra, mas começou de forma totalmente diferente de seu antecessor, e veio a sofrer uma vertiginosa decadência ao decorrer de seu período. Neste período, me descobri doente. Acredito que já estava assim faz algum tempo, mas somente neste pude compreender o que se passava comigo. O medo de encontrar pessoas, a reclusão, as crises de ansiedade e choro, o pessimismo, a solidão, a descrença de um amanhã melhor que o hoje e superior ao ontem. Esta armadilha inesperada mina qualquer crença em planos que qualquer pessoa possa ter. O que não é tão ruim, uma vez que abdiquei de planos tem algum tempo. Mas este período foi nefasto e terrível, entre tantas coisas, pela minha covardia com a vida. Pela minha negligência ao sentimento alheio. Pela minha prisão moral, onde me escondo, fugindo da minha realidade e acreditando viver uma realidade alternativa que se aproxima da utopia que sempre almejei sonhar. Pela raiva e mau humor que apareceram vez ou outra em circunstâncias em que me exigiam tentar ser o mais racional possível. Pela maldade das minhas atitudes com quem foi importante comigo. Se eu prosseguir com esta lista, não terei qualquer horário para concluí-la, sendo neste caso necessário encerrá-la por aqui, apenas para que possam compreender a dimensão do estrago que minha mente e alma se encontram. Não estou morrendo, e nem estou agonizando. Talvez, rastejando? Até possa ser. Como diria a música: "Você tem que aprender a rastejar antes de aprender a andar". Como os bebês. E penso que este é o único cenário em que você tem a chance de regressar no tempo. Não que se retorne a ser uma criança, pois nossas cicatrizes do tempo impedem aquela sensação pura. Restam somente lembranças desta época. Mas te limitam no que desejará fazer, uma vez que vivemos um momento de disseminação da informação pelo planeta (talvez seu único trabalho neste sentido seja investigar com a melhor fonte possível e com as melhores informações obtidas. Acho que falei muita coisa a toa quando deveria falar da translação. Como chorei nesta translação. Como desacreditei em mim mesmo. Como magoei gente. Como teve gente que fugiu de mim. Como eu estou isolado. Foi necessário um choque de realidade para entender as dificuldades e admitir toda a característica desta chaga. Ela foi a imperatriz furiosa neste apocalipse de Mad Max que corresponde ao período entre 02/12/2016 até hoje. Nesta fase assumi algumas convicções que possam até ofender alguém, mas asseguro que não seja de forma pejorativa ou irônica. É apenas compartilhamento de um período difícil, onde quase abdiquei de tudo, onde não acreditava nem em mim mesmo, onde não teria coragem de reencontrar pessoas, dada a minha covardia para encarar as coisas como elas são. Bom, imagino que não há mais nada a se fazer quando as coisas se mostram indomáveis ou mesmo difíceis d ese encarar. Mas eu acredito que a luz no fim do túnel surge. É tão longo chegar nela. Mas a gente chega lá de qualquer modo, pois a história é um rascunho ao vivo do qual temos que ser espertos para rasurar e saber qual será nossa próxima obra. É o ensaio da nossa arte de viver. E que venha a próxima translação.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

23:54



Eram 23:54 da noite, e Fernando estava lá, novamente. Mergulhado em sua mente, como se estivesse em deslocamento acelerado e constante, porém, por absoluto estático fisicamente. Seus movimentos em geral não envolviam seus músculos, pois ele não tem dado muito valor a isso. Ao contrário, nos últimos tempos ele tem perdido todo o interesse que pudesse ter outrora. Em contrapartida, o que Fernando tem mais feito recentemente era botar a mente em atividade. A quantidade de informação que tem adquirido atingira níveis jamais imaginados antes, e tudo parecia confuso e turvo. Fossem as coisas mais simples tal qual eram quando mais novo, talvez a compreensão fosse menos complicada. Por outro lado, ele sempre se perguntava de qual forma poderia ser possível ter o discernimento atual quando a maturidade ainda não havia lhe chegado. Não teria na ocasião a bagagem de vida que hoje possui. Quanto mais envelhecia, quanto mais o tempo passava, mais Fernando adquiria conhecimento. Entretanto, adquirir conhecimento não fazia dele um sábio, tampouco uma referência para qualquer pessoa. Fernando acumulava informação, mas ainda estava longe de deter a sabedoria que ele desejava, uma vez que toda a informação existente jamais poderia ser absorvida por Nando, ou qualquer pessoa deste mundo. A partir do momento em que Fernando entendeu esta regra, além de se tornar um receptor mais ativo de conhecimento, se questionava com mais frequência as estruturas e regras do mundo em que fazia parte. O efeito desta transformação resultou em, pela primeira vez, ele se perguntar se valia a pena esta aquisição. Os pilares do seu santuário vital começavam a ruir, e não havia mais ninguém próximo para lhe ajudar a sustentar as bases que abrigavam as convicções e ideias que há muito lá existiam. Até porque, toda esta ocorrência assemelhava-se a uma pandemia, pois todos ao seu redor demonstravam serem portadores ou estarem presos a determinada situação. E tal qual uma guerra civil, sua mente travava batalhas inglórias ou épicas onde eram confrontados seus princípios e suas convicções. Era o famoso "exército de um homem só". E por conta da devastação que esta peleja ocasionava, Fernando optava por se isolar das pessoas ao redor. A carga de sentimentos que ele sustentava não poderiam ser responsabilidade de outras pessoas. Ainda assim, homo sapiens que é, Fernando atraía gente para esta sua batalha campal, expondo-os a todos os resíduos e ao horror do espólio gerado pelos conflitos internos que ele travava a cada ano, mês, semana, dia, hora, minuto, segundo... E, não poderia ser diferente, quem acabava por pisar neste terreno ingrato, desertava ou se refugiava em outro lugar, pois não é atrativo a ninguém a visão do universo deteriorado de Nando. Consequentemente, além do acúmulo de informação e confusões geradas por isso, somava-se a toda esta mistura uma vontade descontrolada de tentar de qualquer forma mudar o mundo e suas regras, pois não havia sentido que as engrenagens do universo ao seu redor funcionassem de forma tão depravada e descabida. E em virtude de sua impotência e incapacidade de alterar o curso das coisas, a frustração e sensação de culpa eram o produto final produzido por esta unidade motriz tóxica e nociva que começava a reger as normas da mente de Fernando. Passou a ser necessário tomar medidas emergenciais de contingência para amenizar os danos que já eram críticos. Nando precisava se isolar das pessoas. Nando criou uma bolha ao seu redor, pois não era justo condenar outros ao seu conflito. Por mais que todos tenham conhecimento das riquezas e coisas boas que possam ser extraídas de sua realidade, o momento não é nada adequado para que elas estejam por lá. Esta batalha, Nando teria que resolver com suas próprias forças. E, tal qual um filme que ele assiste novamente, surgem os frames desta jornada, exibindo rostos e mais rostos. Todos, de alguma forma, familiares, ou no mínimo, que trazem alguma recordação. Rostos que trouxeram mais informação e conhecimento para Nando. Rostos que ajudaram a gerar confusão e intrigas em seus pensamentos. Rostos que vieram para auxiliá-lo em suas dificuldades. Rostos que vieram e já se foram, ou por conta do caos do universo, ou por se recusarem a permanecer em terreno nem um pouco produtivo. Nando nunca acumulou riquezas. Apenas rostos. Nomes. Lembranças. Cada um deles geraram alegrias, tristezas, ira, lamentações, risadas. Como um sapato apertado que o acompanha por uma estrada, estes pensamentos vem gerando calos e cicatrizes em sua essência. E esta sensação, ao passar do tempo, fez nascer um novo sentimento em Fernando, e talvez o mais perigoso de todos: a indiferença. Esta indiferença acabou por fazer Nando se exilar ainda mais dentro dos seus pensamentos, do seu conhecimento adquirido, das suas confusões, das suas frustrações, da sua culpa. São 23:54 ainda, e lá ele permanece. Mesmo que ferido e mutilado, com alguma esperança de que possa se levantar e ver que o universo ao redor é bem menos confuso e impiedoso como ele tem pensado.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Chaos, galaktiese stof ...

Devo admitir que a sensação de escrever para mim mesmo é algo um tanto quanto insano... Pior que isso, é criar um blog para poder fazer isso, ao invés de simplesmente pensar consigo mesmo sobre o que é necessário refletir. Eu andava esquecido deste blog. Criei faz muito tempo para poder compartilhar minhas ideias, e com o tempo, ele foi sendo esquecido, foi ficando obsoleto. Foi "jantado" pelas redes sociais hoje mais conhecidas. O tempo passou, e já não sou mais a mesma pessoa de outrora, que sonhava em conquistar o mundo compartilhando pensamentos. Pra falar a verdade, durante estes últimos anos sem aparecer por aqui, o que eu mais me convenci é de que mudar o mundo (ainda mais com minhas convicções anteriores) é algo muito difícil, praticamente impossível. Vamos crescendo, acumulando informação, desenvolvendo senso crítico, adquirindo experiência de vida, conhecendo pessoas, esquecendo pessoas... A única convicção que tenho das antigas postagens, a qual posso afirmar categoricamente, mesmo não recordando em qual exatamente eu havia mencionado, é que a vida é maluca e caótica. Aliás, caos tem sido uma palavra bem sugestiva para estes últimos anos. Mas não somente pelo significado literal da palavra, como se fosse algo apenas circunstancial. O caos impera em tudo. O universo é regido pelo caos. O mundo é regido pelo caos. O sapiens é a reprodução do caos. Em alguns casos, o caos é pejorativo. Em outros, ele pode proporcionar benefícios. O caos não significa apenas que coisas ruins ou catastróficas ocorrerão. Ele significa a aleatoriedade de tudo. A incerteza dos próximos 5 minutos. A garantia de que jamais haverá spoilers para a vida. O problema do caos, é tal qual um touro enlouquecido e solto, que não calcula muito bem onde está e o que está fazendo, e pode sair destruindo tudo por aí. Ou mesmo uma tsunami, a qual inicia-se por um processo bastante diminuto se comparado a suas consequências finais. Este é o preço pago de não ter domínio de nossas vidas (e que jamais teremos): o caos é quem passa a ditar as regras, mas sem seguir lógica alguma. Apenas seguindo as leis do universo.
Outro tabu que havia prometido quando criei este espaço seria evitar falar de assuntos pessoais meus, e é nítido o quanto eu não consegui respeitar isso. Acabei me expondo, expondo pessoas, falando visões das quais, provavelmente, eu não compartilho mais dos mesmos princípios, pois a gente cresce e segue nossa missão de metamorfose humana. Somos frágeis quando mais novos, e parece que depois de um determinado momento, começamos a estagnar gradualmente, ou mesmo nossas rotinas tornam-se aceleradas e ocupadas ao extremo, evitando assim que possamos dedicar nosso tempo para auto reflexão.
Tempo. Palavra mágica. Tão mágica que está muito intrínseca só de citar gente muito importante, como Einstein ou Newton. Uma dimensão absurdamente gigante, a qual não temos poder algum. Somos meros passageiros do tempo, e este trem bala o qual ele é segue desenfreado. Não há ticket de volta nesta viagem, e pra acrescentar, não temos garantia alguma de qual itinerário, e muito menos qual o destino final. Somos dominados e conduzidos de forma cega. De que adianta conquistarmos os espaços se jamais poderemos usufruir de tais quando não temos garantia alguma de quanto tempo teremos para isso? E o que dizer então sobre esta dimensão chamada tempo, que vai se eternizar, e nosso embarque nele é pífio, mesquinho, limitado, mínimo, diminuto, minúsculo. Entramos e saímos nesta "embarcação" na mesma proporção de período com o qual piscamos os olhos. Somos mera poeira no meio do caos.
E mesmo assim, para alguém da nossa pequenez, em nossa escala, acabamos por viver coisas fantásticas. Coisas terríveis. Coisas estranhas. Coisas agradáveis. Coisas irritantes, alegres, tristes, sarcásticas, polêmicas, cotidianas, pacíficas, agitadas, intensas, insanas, tranquilas, vagarosas, aceleradas, mínimas, máximas, que não valem nada, ou que valham um mundo para nós. Sei que faltaram N definições nesta lista, mas apenas para que possamos refletir. É uma bagagem enorme, que pode tanto nos enaltecer como sapiens neste mundo, como podem também não servir de nada e ser apenas material descartável. Não penso que isso seja exagero de minha parte. Mas devemos reconhecer que para muitos, tudo isso pode ser apenas uma experiência desagradável e que não tenha mais sentido algum. Também não estou querendo ser dramático demais afirmando isso. Apenas que, nesta jornada chamada vida, cada um vive algo diferente do outro. E que para alguns, o caos rege as coisas de forma que tudo parece OK. Para outras pessoas, infelizmente, o mesmo caos não é nem de longe uma fração de generoso como foi para as primeiras citadas. E esta dualidade com certeza é confusa. Por um lado, o caos é justo, pois ele não escolhe quem vai tratar bem ou mal (ao menos desconheço se há alguma ordem ou lógica nisso). Por outro lado, como podemos dizer que há justiça quando uns são exaltados e outros condenados, sendo que não há crime que pese em suas vivências?
Se nossa vida é incontrolável, vivemos um tempo pífio, e estamos sujeitos a tantas situações, por que acumulamos sensações e sentimentos intensos, os quais permitimos que influenciem nas nossas decisões, dentro daquilo que possuímos "alçada" para agir? Por que guardamos o medo? Por que acumulamos a ira? Qual a razão de estarmos alegres? Isso de fato é bom a todo tempo? Por que vivenciamos a tristeza? Não estou procurando as respostas destas perguntas, até porque NINGUÉM saberá respondê-las. NINGUÉM. E justamente por sermos mera poeira estelar. Não temos e não teremos conhecimento algum sobre as coisas e suas regras. Achamos que somos sábios, inteligentes, intelectuais, mas não somos nada disso. Somos meros passageiros do tempo e do caos. E ao mesmo tempo, quase à deriva. Não saberemos o que ocorrerá nas próximas horas ou minutos, e não teremos o poder de determinar isso. Fazer planos pode ser frustrante justamente por conta destas variações ou oscilações. Percebem o quanto o caos está presente? Não bastasse ele determinar o mundo exterior, consequentemente ele determina também nossas mentes, pois elas sempre estão expostas a este universo e irão reagir ou se moldar de acordo com os acontecimentos ao nosso redor. Qual a razão de ter medo de viver diante disso? E qual a razão de ter medo de morrer, uma vez que esta é a única certeza que possuímos neste cenário todo? Nestes últimos anos, eu tentei ser eu mesmo. Mas no fim, eu jamais fui eu mesmo. Pois eu nunca terei certeza de quem eu sou e que diabos eu estou fazendo aqui. Me sinto uma variável ambulante. Quando se pensa em tudo isso que citei aqui, acaba-se por ter uma nova situação: perde-se o interesse por tudo e por todos. A indiferença passa a ser a base dos seus pensamentos, e com isso, um enorme vácuo passa a tomar posse de ti. Mas por que levantar questões tão relevantes ocasionam isso?
Ando cansado de muita coisa por aí. Acho este mundo uma caixa de pandora das injustiças e desencontros. É insolente que sejamos regidos por pessoas tão limitadas e pífias. É revoltante você ver por aí as diferenças. Uns mais belos, outros tão feios. Uns tão ricos e abundantes, outros tão pobres e miseráveis. Uns tão livres e poderosos, outros tão cativos e restringidos. Uns tão sadios, outros tão doentes. E tudo isso burlou o filtro do caos. Porque achamos que somos importantes. Que temos relevância. Que somos Senhores do nosso Destino. Pura balela, mentira cabeluda. Não somos absolutamente nada, e ao fim da jornada, vamos virar a poeira espacial que sempre fomos, para nos colocar no nosso devido lugar. Enquanto isso não ocorre, sempre sobrará a sensação de impotência em tentar ajustar estas calamidades que presenciamos. Fosse ainda o caos quem as organizasse, ainda me conformaria. Mas não me conformo de que nós queiramos tomar as rédeas, dado que somos uma das aberrações mais nocivas que já existiu. Admito que a minha vontade quando vejo tudo isso é permanecer deitado, sem me levantar, por meses, para evitar a contaminação. O mundo está contaminado. E se expor a ele pode ser fatal.