Eram 23:54 da noite, e Fernando estava lá, novamente. Mergulhado em sua mente, como se estivesse em deslocamento acelerado e constante, porém, por absoluto estático fisicamente. Seus movimentos em geral não envolviam seus músculos, pois ele não tem dado muito valor a isso. Ao contrário, nos últimos tempos ele tem perdido todo o interesse que pudesse ter outrora. Em contrapartida, o que Fernando tem mais feito recentemente era botar a mente em atividade. A quantidade de informação que tem adquirido atingira níveis jamais imaginados antes, e tudo parecia confuso e turvo. Fossem as coisas mais simples tal qual eram quando mais novo, talvez a compreensão fosse menos complicada. Por outro lado, ele sempre se perguntava de qual forma poderia ser possível ter o discernimento atual quando a maturidade ainda não havia lhe chegado. Não teria na ocasião a bagagem de vida que hoje possui. Quanto mais envelhecia, quanto mais o tempo passava, mais Fernando adquiria conhecimento. Entretanto, adquirir conhecimento não fazia dele um sábio, tampouco uma referência para qualquer pessoa. Fernando acumulava informação, mas ainda estava longe de deter a sabedoria que ele desejava, uma vez que toda a informação existente jamais poderia ser absorvida por Nando, ou qualquer pessoa deste mundo. A partir do momento em que Fernando entendeu esta regra, além de se tornar um receptor mais ativo de conhecimento, se questionava com mais frequência as estruturas e regras do mundo em que fazia parte. O efeito desta transformação resultou em, pela primeira vez, ele se perguntar se valia a pena esta aquisição. Os pilares do seu santuário vital começavam a ruir, e não havia mais ninguém próximo para lhe ajudar a sustentar as bases que abrigavam as convicções e ideias que há muito lá existiam. Até porque, toda esta ocorrência assemelhava-se a uma pandemia, pois todos ao seu redor demonstravam serem portadores ou estarem presos a determinada situação. E tal qual uma guerra civil, sua mente travava batalhas inglórias ou épicas onde eram confrontados seus princípios e suas convicções. Era o famoso "exército de um homem só". E por conta da devastação que esta peleja ocasionava, Fernando optava por se isolar das pessoas ao redor. A carga de sentimentos que ele sustentava não poderiam ser responsabilidade de outras pessoas. Ainda assim, homo sapiens que é, Fernando atraía gente para esta sua batalha campal, expondo-os a todos os resíduos e ao horror do espólio gerado pelos conflitos internos que ele travava a cada ano, mês, semana, dia, hora, minuto, segundo... E, não poderia ser diferente, quem acabava por pisar neste terreno ingrato, desertava ou se refugiava em outro lugar, pois não é atrativo a ninguém a visão do universo deteriorado de Nando. Consequentemente, além do acúmulo de informação e confusões geradas por isso, somava-se a toda esta mistura uma vontade descontrolada de tentar de qualquer forma mudar o mundo e suas regras, pois não havia sentido que as engrenagens do universo ao seu redor funcionassem de forma tão depravada e descabida. E em virtude de sua impotência e incapacidade de alterar o curso das coisas, a frustração e sensação de culpa eram o produto final produzido por esta unidade motriz tóxica e nociva que começava a reger as normas da mente de Fernando. Passou a ser necessário tomar medidas emergenciais de contingência para amenizar os danos que já eram críticos. Nando precisava se isolar das pessoas. Nando criou uma bolha ao seu redor, pois não era justo condenar outros ao seu conflito. Por mais que todos tenham conhecimento das riquezas e coisas boas que possam ser extraídas de sua realidade, o momento não é nada adequado para que elas estejam por lá. Esta batalha, Nando teria que resolver com suas próprias forças. E, tal qual um filme que ele assiste novamente, surgem os frames desta jornada, exibindo rostos e mais rostos. Todos, de alguma forma, familiares, ou no mínimo, que trazem alguma recordação. Rostos que trouxeram mais informação e conhecimento para Nando. Rostos que ajudaram a gerar confusão e intrigas em seus pensamentos. Rostos que vieram para auxiliá-lo em suas dificuldades. Rostos que vieram e já se foram, ou por conta do caos do universo, ou por se recusarem a permanecer em terreno nem um pouco produtivo. Nando nunca acumulou riquezas. Apenas rostos. Nomes. Lembranças. Cada um deles geraram alegrias, tristezas, ira, lamentações, risadas. Como um sapato apertado que o acompanha por uma estrada, estes pensamentos vem gerando calos e cicatrizes em sua essência. E esta sensação, ao passar do tempo, fez nascer um novo sentimento em Fernando, e talvez o mais perigoso de todos: a indiferença. Esta indiferença acabou por fazer Nando se exilar ainda mais dentro dos seus pensamentos, do seu conhecimento adquirido, das suas confusões, das suas frustrações, da sua culpa. São 23:54 ainda, e lá ele permanece. Mesmo que ferido e mutilado, com alguma esperança de que possa se levantar e ver que o universo ao redor é bem menos confuso e impiedoso como ele tem pensado.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
23:54
Eram 23:54 da noite, e Fernando estava lá, novamente. Mergulhado em sua mente, como se estivesse em deslocamento acelerado e constante, porém, por absoluto estático fisicamente. Seus movimentos em geral não envolviam seus músculos, pois ele não tem dado muito valor a isso. Ao contrário, nos últimos tempos ele tem perdido todo o interesse que pudesse ter outrora. Em contrapartida, o que Fernando tem mais feito recentemente era botar a mente em atividade. A quantidade de informação que tem adquirido atingira níveis jamais imaginados antes, e tudo parecia confuso e turvo. Fossem as coisas mais simples tal qual eram quando mais novo, talvez a compreensão fosse menos complicada. Por outro lado, ele sempre se perguntava de qual forma poderia ser possível ter o discernimento atual quando a maturidade ainda não havia lhe chegado. Não teria na ocasião a bagagem de vida que hoje possui. Quanto mais envelhecia, quanto mais o tempo passava, mais Fernando adquiria conhecimento. Entretanto, adquirir conhecimento não fazia dele um sábio, tampouco uma referência para qualquer pessoa. Fernando acumulava informação, mas ainda estava longe de deter a sabedoria que ele desejava, uma vez que toda a informação existente jamais poderia ser absorvida por Nando, ou qualquer pessoa deste mundo. A partir do momento em que Fernando entendeu esta regra, além de se tornar um receptor mais ativo de conhecimento, se questionava com mais frequência as estruturas e regras do mundo em que fazia parte. O efeito desta transformação resultou em, pela primeira vez, ele se perguntar se valia a pena esta aquisição. Os pilares do seu santuário vital começavam a ruir, e não havia mais ninguém próximo para lhe ajudar a sustentar as bases que abrigavam as convicções e ideias que há muito lá existiam. Até porque, toda esta ocorrência assemelhava-se a uma pandemia, pois todos ao seu redor demonstravam serem portadores ou estarem presos a determinada situação. E tal qual uma guerra civil, sua mente travava batalhas inglórias ou épicas onde eram confrontados seus princípios e suas convicções. Era o famoso "exército de um homem só". E por conta da devastação que esta peleja ocasionava, Fernando optava por se isolar das pessoas ao redor. A carga de sentimentos que ele sustentava não poderiam ser responsabilidade de outras pessoas. Ainda assim, homo sapiens que é, Fernando atraía gente para esta sua batalha campal, expondo-os a todos os resíduos e ao horror do espólio gerado pelos conflitos internos que ele travava a cada ano, mês, semana, dia, hora, minuto, segundo... E, não poderia ser diferente, quem acabava por pisar neste terreno ingrato, desertava ou se refugiava em outro lugar, pois não é atrativo a ninguém a visão do universo deteriorado de Nando. Consequentemente, além do acúmulo de informação e confusões geradas por isso, somava-se a toda esta mistura uma vontade descontrolada de tentar de qualquer forma mudar o mundo e suas regras, pois não havia sentido que as engrenagens do universo ao seu redor funcionassem de forma tão depravada e descabida. E em virtude de sua impotência e incapacidade de alterar o curso das coisas, a frustração e sensação de culpa eram o produto final produzido por esta unidade motriz tóxica e nociva que começava a reger as normas da mente de Fernando. Passou a ser necessário tomar medidas emergenciais de contingência para amenizar os danos que já eram críticos. Nando precisava se isolar das pessoas. Nando criou uma bolha ao seu redor, pois não era justo condenar outros ao seu conflito. Por mais que todos tenham conhecimento das riquezas e coisas boas que possam ser extraídas de sua realidade, o momento não é nada adequado para que elas estejam por lá. Esta batalha, Nando teria que resolver com suas próprias forças. E, tal qual um filme que ele assiste novamente, surgem os frames desta jornada, exibindo rostos e mais rostos. Todos, de alguma forma, familiares, ou no mínimo, que trazem alguma recordação. Rostos que trouxeram mais informação e conhecimento para Nando. Rostos que ajudaram a gerar confusão e intrigas em seus pensamentos. Rostos que vieram para auxiliá-lo em suas dificuldades. Rostos que vieram e já se foram, ou por conta do caos do universo, ou por se recusarem a permanecer em terreno nem um pouco produtivo. Nando nunca acumulou riquezas. Apenas rostos. Nomes. Lembranças. Cada um deles geraram alegrias, tristezas, ira, lamentações, risadas. Como um sapato apertado que o acompanha por uma estrada, estes pensamentos vem gerando calos e cicatrizes em sua essência. E esta sensação, ao passar do tempo, fez nascer um novo sentimento em Fernando, e talvez o mais perigoso de todos: a indiferença. Esta indiferença acabou por fazer Nando se exilar ainda mais dentro dos seus pensamentos, do seu conhecimento adquirido, das suas confusões, das suas frustrações, da sua culpa. São 23:54 ainda, e lá ele permanece. Mesmo que ferido e mutilado, com alguma esperança de que possa se levantar e ver que o universo ao redor é bem menos confuso e impiedoso como ele tem pensado.
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