domingo, 31 de dezembro de 2017

MMXVIII

A respiração está ofegante. São 6h15. Jonathan correu demais. Acordara cedo para praticar suas atividades, e hoje decidiu intensificar mais o exercício. Está acumulando planos e metas, ainda mais agora que é Janeiro e pretende planejar bem o ano que virá. O que fará nas suas férias? Que lugares deseja conhecer? Quais conhecimentos adquirir? Cursos, coaching, treinamentos, livros? Conhecer novos amigos? Alguma viagem? Investimentos, ações com resultados a longo prazo... Sua mente demonstra estar mais acelerada que seu corpo instantes atrás, e ele sabe que precisa estar na sua melhor forma para esta corrida que se estenderá nos próximos meses.

Alessandra está indecisa. Não sabe com que roupa irá sair para o compromisso que marcou. E admite que está um pouco impaciente, pois é sábado de carnaval, e a cidade está abarrotada e totalmente caótica. Sabe que irá gastar algumas horas num trajeto que costuma levar poucos minutos. O trânsito está fervilhando e os carros parados dão a sensação de que as coisas não andarão, mas no fundo ela sabe que o momento é passageiro. Precisa voltar a sua cidade ainda hoje após o compromisso para aproveitar os dias de folga com a família, mas não se queixa tanto, pois aproveita o bom momento que está vivendo.

O relógio tocou e deu a hora de Bruno se levantar. Não acorda mal humorado como de hábito, pois é sexta, e também está mais tranquilo pois o Outono está chegando, sua estação favorita. O calor irá amenizar e sua falta de paciência também. Está se sentindo ocioso, mas acredita que as coisas irão mudar em breve. A incógnita é se elas ficarão melhores ou piores, mas o entusiasmo de dois meses atrás diminuiu numa dose quase que molecular. Imperceptível, talvez, mas ele sabe que ocorreu. No fundo, entende que precisa levantar e fazer suas coisas.
 
Jornais, tinta, pincéis, lona... Assim vendo sendo as férias de Bianca. A procrastinação acabou pesando e ela não planejou viagens, nem passeios. E precisava de alguma forma preencher o tempo e seus pensamentos, para aliviar a sensação de culpa que habita sua mente nestes dias. Fez tudo de última hora. Aproveitou o feriado de Tiradentes para comprar o material, e no dia seguinte, já estava de férias do ofício, mas em plena atividade na mente e no coração, pensando em quem magoou. Ela sabia que não tomara a decisão mais sensata, mas não havia mais volta. Talvez o cheiro da tinta, a música tocando, o cansaço ao fim do dia fizessem com que pensasse em outras coisas.
 
O suor corria pela face de Eduardo. Por mais habituado que fosse, estar numa ligação com várias pessoas e todas lhe bombardeando perguntas não era uma sensação boa. Ele sabia todas as respostas, mas a carga de stress não tem lhe causado bons frutos. Há muito ele não saía para fazer coisas diferentes, sua vida se resumia a trabalho e casa (exceto o último final de semana que foi dia das mães e ele pôde estar com a família). O cansaço físico sempre foi atenuante nele, sempre sedentário. Mas o esgotamento psicológico já vinha sendo um fardo considerável a carregar.
 
O tempo parecia estar desenfreado para Juliana, pois justo quando ele deveria passar mais devagar, mais ele parecia acelerado. Ainda mais depois de um feriado emendado. Ia encontrar o rapaz que lhe interessava, depois de insistir em vê-lo. Acabou conseguindo chegar a tempo, mesmo parecendo levar uma eternidade para se arrumar e tentar ficar mais atraente o possível. O encontro foi bom, embora não tivesse ocorrido nada além de uma boa conversa e um bom chopp. Mas ela alimentou a esperança de ser convidada novamente. Quem sabe, as quermesses iam começar, talvez fosse uma ótima oportunidade. Mas não houve convite. Não houve uma nova chance. Houve apenas o silêncio.
 
O oceano de pensamentos na cabeça de Marcos, por mais mudos que fossem, agitavam em ondas, quase tsunamis, e tal qual um navio a deriva, ele tentava se manter firme. Não estava sendo nada fácil, ele imaginava que fosse enlouquecer. De qualquer forma, mantinha-se em pé, mesmo que tal qual a imagem de um boxeador prestes a ser nocauteado, mas sabe que daqui a dois segundos o sino iria tocar. Sua rotina se resumia em noites em claro, inúmeras mensagens não respondidas. Estava recluso, isolado. Nem a final da Copa do Mundo o despertava a atenção.
 
O porta-retrato na mesa do computador deixava Vanessa pensativa. Talvez qualquer outra pessoa ficasse triste, melancólica ao ver a imagem do pai às vésperas do dia dos pais, estando ele longe. Mas não era o caso de Vanessa. Estava muito pensativa, inevitavelmente. Se perguntava o quão a relação foi boa. O que gostaria de dizer pra ele pessoalmente, e não por e-mail ou mídias sociais. Sempre soou político demais o discurso, e ela tinha tanto a dizer, tanto a argumentar. Ela queria ser escutada, que ouvissem o que ela tinha a dizer. Mas precisava olhar nos olhos dele para se pronunciar. Quem sabe num outro dia, quando ele reaparecer...
 
A desafinação era absurda, mas Lucas nem ligava, enquanto dirigia e tentava cantar. Ia ter a primeira chance de se desligar de tudo por alguns poucos dias. Não importa a estrada pesada que pegaria neste 7 de Setembro emendado, ele ia para a praia, encontrar os amigos, lembrar histórias, tomar algum porre com eles... E sem puder, dizia que era mais do que merecido este descanso. Ele tem noção de que o tempo mudou e as coisas idem, mas ao menos um breve período para recarregar as pilhas o animam. Sabe que a rotina voltará, e portanto, não deverá perder esta chance em hipótese alguma.
 
Paciência, sem dúvidas, para Lucy, deveria ser algo equivalente ao som no espaço. Quase nula. Ligava a TV, acessava a internet, e todos falando de política, mobilizados pelas eleições. Ela odiava aquilo, pois achava a superficialidade com que as pessoas tratavam do assunto um crime. Independente de suas convicções, ela se negava a participar de algo neste nível, similar a um programa de conflitos familiares, onde o que vale é a audiência e querer mostrar que não "engole sapo". O maior desejo dela neste momento era morar longe do Brasil.
 
Se encontrasse uma lâmpada, esfregasse-a e surgisse um gênio lhe oferecendo um único desejo, Diego com certeza saberia o que dizer, sem hesitar: que o tempo voltasse. A frustração de ver como as coisas andaram neste ano e ver que tudo parece tão estático. Nem a chance de comprar uma câmera nova na Black Friday o animava, estava decepcionado com sua postura em vários aspectos. Era preciso fazer um balanço geral do que deve ter dado errado.
 
"Meu amigo secreto é o Fábio!", anunciou Tânia. Entregou o presente que comprou, uma caixa com três livros. Embora estivesse entretida na brincadeira, estava fazendo um balanço do que rolou durante o ano todo. Semana seguinte já seria natal, e será que valeu a pena? A sensação dela é de que nada do planejado deu certo. Caberia agora encontrar razões, culpados, ou qualquer coisa do tipo? Talvez, se quisesse planejar o próximo ano. Porém, em sua mente, ela dizia: "pra quê fazer planos, se nada ocorre como planejamos?". Muito embora isso ecoava, no fundo, no fundo, ela sabia que estava ansiosa para que o ano seguinte fosse melhor.

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