sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Sedução de Cristal

Edinho estava deitado em sua cama refletindo. Na verdade, o que ele mais fez em sua vida foi refletir. Sua mente sempre esteve em constante atividade. Estava repousando, a cabeça longe. A cabeça nela. Em toda a sua história ao lado dela. O jovem Ed foi uma criança e adolescente excêntrico. Cresceu pensando no sentido das coisas. Enquanto os outros garotos divertiam-se soltando papagaios pelas ruas, Ed preferia ler livros. Na adolescência, cultuava bandas de rock, ao passo que os colegas de escola conversavam de baladas e porres como um ápice da existência. É provável que ele vivesse e pensasse diferente em função da criação distinta que teve, e dos problemas que começaram a surgir em seu lar. E quanto mais se comportava diferente da maioria, mais assustador era este mundo pra ele. Edinho chegou a fase adulta cheio de incertezas, pois todos os seus pensamentos tentavam decifrar a razão da existência. Rapidamente, começou a fazer suas escolhas, depois de muitos processos de tentativa e erro. Conheceu amigos com mentes e idéias muito similares, e daí nasceu seu ciclo social, o que foi uma grande conquista, ao seu ver. Neste período foi que ela apareceu... Cristal era uma moça ruiva, dos olhos mais verdes possíveis, encantadora ao extremo, sedutora, e muito popular. Apesar das virtudes, Cristal era tida como vulgar e indecente, pois muitos rapazes, e mesmo moças, já se aproveitaram dos encantos da donzela. Não havia escolha de classe social, cor, ou qualquer outro fator que impedisse a moça de suas intenções. Se alguém fossr atrás de Cristal para se divertir, ela estaria dando prazer a quem a buscasse. Quando Edinho tomou conhecimento da existência de Cristal, sentiu uma certa repulsa, pois não concordava com aquele espírito de existência. Haviam ainda resquícios de medo semeados no rapaz desde a infância, e ele se aprontou a tirar conclusões, mesmo sem ter tido contato com a moça. Ele soube da existência de Cristal através de dois amigos, que acabaram por passar algumas noites com ela, e comentaram sobre a aventura sedutora que tiveram. Cristal não recusava convite de ninguém. Mas mesmo com seus amigos envolvidos com ela, Edinho procurava ficar distante da moça, mesmo porque estava de namorico com uma garota. Mas começou a perceber que, mesmo estando com uma moça correta, não entendia por que seus amigos, e no fim, muita gente, ainda se entusiasmavam tanto com alguém de tão má índole. As incertezas e a mania de refletir acabaram fazendo com que o namoro de Ed naufragasse, e isso fez com que ele pensasse mais ainda sobre tudo. Em sua mente, ele se questionava: "Por que eu procuro uma moça boa, tento ser alguém do bem para que aqueles ao meu redor não sofram, e no fim, sou dispensado por pensar demais?". Este foi o ponto inicial para uma mudança de postura de Edinho. Começou a se envolver nas diversões dos seus amigos, mas ainda sim, evitava contato com Cristal. Seus pais sempre diziam: "Evite esta moça, ela não presta". Mas o convívio com os amigos começou, aos poucos, a fazer Edinho se direcionar a ela, mesmo que fosse um mero 'oi'. Certa ocasião, em uma festa, ela apareceu, linda. Edinho reconheceu que ela estava demais, e, já bem tarde da noite, enquanto o baile rolava, Cristal foi até Edinho e o beijou. Foi uma surpresa pra Ed, entretanto, mais surpreendente foi, para Cristal, o fato de que o rapaz não se entusiasmou com o fato, tal qual fosse isso apenas mais um detalhe da diversão. De qualquer forma, a visão que Edinho possuía de Cristal já havia mudado muito. Ele não a enxergava como alguém vulgar. Ela já fazia parte do seu círculo. Todavia, os fascínios de Cristal ainda não haviam atingido Edinho, e isso também começou a mexer com ela. Numa certa noite, Edinho procurou os amigos, mas todos estavam ocupados. Acabou por achar Cristal. Eles conversaram por horas, até que, a moça o beijou novamente. Mas desta vez, o beijo foi mais intenso, e Ed percebeu isso. Nunca ninguém havia beijado e abraçado seu corpo como ela fez, e seus pensamentos começaram a ferver num turbilhão que ele jamais sentiu antes. Estava envolvido nos encantos de Cristal. Depois de alguns minutos, ele a afastou. Ela não entendeu bem a razão. Edinho começou a chorar, se penitenciando. Pensou estar traindo tudo que acreditou (ou o que falaram a ele), e suas convicções estariam desmoronando. Desapontaria amargamente seus pais, que tanto o aconselharam a não se envolver com ela. Mas o efeito já havia surtido. Nunca ninguém lhe proporcionou uma sensação tão agradável quanto Cristal. Ele estava encantado. Toda a censura que fez a respeito dela, na verdade, gerou uma curiosidade escondida em seus pensamentos. Mas ele sabia que Cristal não era sua, e que ele não passava de mais um seduzido pelo verde daqueles olhos. Passado um tempo, Ed ficou mais envolvido com a moça. Mas como conseguir Cristal pra ele? Edinho queria poder beijar os lábios ardentes dela, sentir a magia de Cristal dominar seu corpo e sua mente todos os dias. E decidiu voltar a esnobá-la, tal qual fazia antes, e que fez com que ela o beijasse certa noite. Ele não imaginou que funcionaria... Passado um tempo desde que voltou a não idolatrar Cristal, veio a grande surpresa: certa noite, em sua casa, Cristal bateu em sua porta. Segurava uma mala. E disse: "Edinho, meu amor, quero vir morar com você. Você quer que eu more com você?" O plano de Edinho deu certo, e ele e Cristal passaram a morar juntos. Todas as noites, eles se amavam, e Edinho se sentia feliz por estar com sua amada, e preocupado com o que diriam. Certa tarde, ao chegar do trabalho, Ed percebeu um silêncio incomum na casa. Encontrou um bilhete que dizia: "Ed, precisei sair, mas voltarei. Não se preocupe, voltarei a estar contigo. Ass: Cristal". E hoje está Edinho, a refletir, como sempre fez, tentando imaginar onde está aquela que consegue dar um nó em seus sentimentos. Sonharia com os olhos verdes de Cristal...

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